OUTRO
SER HUMANO É POSSÍVEL
Manifesto pela libertação
dos animais
Bilhões de seres vivos são confinados, torturados
e sacrificados a cada ano por nossa espécie. Este massacre
desumanizador pode ser perfeitamente evitado – desde
que se deixe de rebaixar os animais ao status de propriedade
Gary L. Francione
Segundo
o ministério norte-americano da Agricultura, só
os Estados Unidos abatem mais de oito bilhões de
animais por ano, para alimentação. A cada
dia, mais de 22 milhões são sacrificados nos
abatedouros dos EUA isto é: mais de 950 mil por hora,
16 mil por minuto! Apesar dos progressos efetuados nos últimos
anos, continuam a ser mantidos em condições
de criação intensiva apavorantes, mutilados
de diversas maneiras, sem anestésicos, transportados
por longas distâncias em compartimentos exíguos
e insalubres, para serem finalmente executados aos gritos,
no ambiente fétido e imundo de um abatedouro.
Os
animais silvestres não estão em situação
melhor. Nos Estados Unidos, cerca de 200 milhões
são vítimas da caça, todos os anos.
Milhões são também utilizados para
a pesquisa biomédica e o teste de novos produtos.
Medem-se neles o efeito de toxinas, de doenças raras,
de moléculas experimentais, das radiações,
dos tiros de armas de fogo e são submetidos a múltiplas
formas de privações físicas ou psicológicas.
Se sobrevivem aos experimentos, são quase sempre
mortos logo em seguida ou reciclados para outras experiências,
que dessa vez porão fim à sua resistência.
Circos, zoológicos, desfiles, parques, espetáculos
de golfinhos e outros utilizam os animais com o único
fim de divertir. Mais de 40 milhões de bichos de
pelo são abatidos, a cada ano, pela moda...
Antes
do século 19, os animais eram considerados objetos.
Mesmo para Descartes, um gemido de cão era semelhante
ao rangido de um mecanismo que precisasse de óleo.
[1] Falar de nossas obrigações morais para
com os animais, “máquinas criadas por Deus”,
não tinha, para o autor do Discurso do Método,
mais sentido do que falar de nossas obrigações
morais para com os relógios, máquinas criadas
pelos homens.
O
princípio humanista do tratamento médico dos
bichos doentes e a aplicação de leis sobre
o bem-estar animal que dele resulte supõe que aceitemos
perguntar a nós mesmos se o sofrimento animal é
indispensável. Se o fato de não utilizar os
animais para nosso conforto causaria a nós mais prejuízo
do que o sofrimento causa aos animais. Em geral, o interesse
humano prevalece, e o sofrimento animal é considerado
“um mal necessário”. Por exemplo, a lei
britânica que regula a utilização de
animais de laboratório exige, antes que um experimento
comece, uma avaliação dos “possíveis
efeitos nocivos sobre os animais envolvidos, em relação
ao benefício que possa resultar do experimento”
[2].
Para
que uma proibição do sofrimento animal tenha
algum alcance, é preciso que condene qualquer dor
inflingida unicamente por prazer, diversão ou conveniência
[3]. Usar um casaco de pele, impor às cobaias múltiplos
testes para os produtos domésticos ou novas marcas
de batom não tem relação com nenhum
interesse vital para o ser humano. Comer carne é
considerado nocivo à saúde pela maior parte
dos nutricionistas. Aliás, especialistas em ecologia
apontaram os danos que a criação intensiva
causa ao nosso ambiente. Para cada quilograma de proteínas
animais fornecidas, o animal deve consumir cerca de 6 quilogramas
de proteínas vegetais e de forragem. Além
disso, produzir um quilo de carne exige mais de 100 mil
litros de água, enquanto a produção
de um quilo de trigo não chega a exigir 900 litros...
Propriedade,
base para a escravidão
A incoerência entre nossos atos e nossos pensamentos
a respeito dos animais vem do seu estatuto de propriedade
[4]. Segundo a lei, “os animais são propriedades,
do mesmo modo que objetos inanimados como os carros ou os
móveis” [5]. Os animais são considerados
pertencentes ao patrimônio do Estado, que os põe
à disposição do povo; mas eles podem
tornar-se propriedade de indivíduos por meio da caça,
do amestramento ou confinamento. O «sofrimento»
dos proprietários, por não poder usufruir
de sua “propriedade” a seu bel-prazer conta
mais do que a dor do animal. A partir do momento em que
se trata de interesses econômicos, não existe
mais limite para a utilização ou para o tratamento
abusivo dos bichos.
A
criação intensiva, por exemplo, é autorizada
porque se trata de uma exploração institucionalizada
e aceita. Os industriais da carne avaliam que as práticas
de mutilar animais, sejam quais forem a dor e o sofrimento
suportados por eles, são normais e necessários.
Os tribunais presumem que os proprietários não
infligirão intencionalmente atos de crueldade inútil,
que diminuiriam o valor monetário do animal [6]].
As leis de bem-estar animal visam proteger os animais enquanto
bens comerciáveis. Os avanços da indústria
agro-alimentar em seu favor obedecem, em geral, a critérios
de rendimento econômico, tendo os animais um valor
mercantil [7], American Meat Institute Foundation, Washington
DC, 2005.]].
Se
queremos de fato fazer avançar o estatuto do animal
em nossa sociedade, devemos aplicar o “princípio
de igualdade de consideração” (regra
segundo a qual devemos tratar de modo igual os casos semelhantes),
uma noção essencial a qualquer teoria moral.
Mesmo que exista um grande número de diferenças
entre os humanos e os animais, pelo menos uma coisa fundamental
nos aproxima: nossa capacidade de sofrer.
Se
nosso desejo de não fazer os animais sofrerem inutilmente
reveste-se de alguma significação, deveríamos
então conceder-lhes a igualdade de consideração.
O problema é que a aplicação desse
princípio já fracassou no tempo da escravidão,
que autorizava pessoas a exercer um direito de propriedade
sobre seus semelhantes. A instituição da escravidão
humana era estruturalmente idêntica à da possessão
de um animal. O escravo era considerado um bem, seu proprietário
podia não levar em conta seus interesses se isto
não lhe fosse economicamente proveitoso.
Admitia-se,
certamente, que o escravo podia experimentar sofrimento.
Todavia, as leis para o respeito de seu bem-estar fracassaram
pelas mesmas razões que as leis pelo respeito ao
bem-estar animal fracassam em nossos dias: nenhum limite
real é fixado para o nosso direito de propriedade.
Os interesses dos escravos só eram preservados quando
geravam lucro para os proprietários ou atendiam a
seus caprichos.
Atualmente,
o interesse de um ser humano em não ser considerado
propriedade é protegido como um direito. Ter o direito
fundamental de não ser tratado como uma propriedade
é uma condição mínima para existir
como pessoa. Se quisermos modificar a condição
dos animais, devemos estender a eles este direito que decidimos
aplicar a todos os humanos, sejam quais forem suas particularidades.
Isto não erradicaria todas as formas de sofrimento,
mas significaria que os animais não poderiam mais
ser utilizados como fonte de lucro. Por que julgamos aceitável
caçar animais, aprisioná-los, exibi-los em
circos e zoológicos, utilizá-los em experimentações
e comê-los - em outras palavras, tratá-los
como nunca ousaríamos tratar ser humano algum?
Libertar
o animal, objetivo humanista
A tese segundo a qual os seres humanos são dotados
de características mentais completamente ausentes
nos animais é contraditória com a teoria da
evolução. Darwin afirmava que não existem
características exclusivamente humanas: “A
diferença de inteligência entre o humano e
o animal mais evoluído é uma questão
de grau e não de espécie.” Mesmo se
não somos capazes de avaliar a natureza precisa da
consciência animal, parece evidente que todo ser dotado
de percepção é consciente e possui
uma existência mental contínua. O professor
Antonio Damasio, um neurologista que trabalha com pessoas
atingidas por infartos cerebrais e graves danos ao cérebro,
atesta que estes doentes possuem o que ele chama de «núcleo
de consciência». Os humanos que sofrem de amnésia
transitória, por exemplo, não têm noção
alguma do passado ou do futuro, mas conservam uma consciência
de seus corpos em relação aos objetos e aos
acontecimentos presentes. Damasio afirma que numerosas espécies
animais detêm esse mesmo núcleo de consciência
[8]. O fato de eles não terem noção
autobiográfica de suas vidas (pelo menos que seja
do nosso conhecimento) não significa que não
tenham uma existência mental contínua, ou que
não experimentem interesse algum por viver, ou que
o matador lhes seja indiferente. Os animais possuem uma
inteligência considerável e são capazes
de tratar uma informação de modo sofisticado.
Como os humanos, comunicam-se com membros de sua própria
espécie. Está provado, por exemplo, que os
grandes macacos utilizam uma linguagem simbólica.
Talvez
nenhum animal - exceto o ser humano - seja capaz de se reconhecer
em um espelho, mas nenhum humano é capaz de voar
ou de respirar debaixo d’água sem ajuda. Por
que a capacidade de se reconhecer no espelho ou de utilizar
a linguagem articulada seria superior, no sentido moral
do termo, ao poder de voar ou de respirar debaixo d’água?
A resposta, bem entendido, é que nós o proclamamos.
Mas não existe razão alguma para concluir
que as características pretensamente exclusivas do
ser humano justifiquem o fato de que tratemos o animal como
uma propriedade mercantil. Alguns seres humanos são
privados destas características, e no entanto nós
não os consideramos objetos. Por conseguinte, a questão
central não é: os animais podem raciocinar?
Ou: podem falar? Mas, precisamente: eles podem sofrer?
Se
queremos que seus interesses sejam respeitados, temos que
conceder-lhes apenas um direito: o de não serem mais
equiparados a uma simples mercadoria [9].
[1] René Descartes, Discours de la méthode,
5a parte (sobre o animal-máquina), (1643).
[2]
Cf. Animals (Scientific Procedures) Act, Londres, 1986.
Ver também, para a União Européia,
a diretriz 86/609/CEE, de 24 de novembro de 1986, relativa
à proteção dos animais utilizados para
fins experimentais ou outros fins científicos.
[3]
Ler entrevistas com Gary L. Francione: www.friendsofanimals.org/programs/animal-rights/interview-with-gary-francione-french.html
e http://veganrevolution.free.fr/documents/itwfrancionefrancais.html
[4]
A concepção ocidental moderna da propriedade,
segundo a qual os recursos são bens específicos
que pertencem ou são atribuídos a indivíduos
particulares, com a exclusão de qualquer outro, tem
sua origem na decisão de Deus de conceder aos humanos
o poder de reinar sobre o mundo animal (Gênese, 1:26
e 1:28).
[5]
Godfrey Sandys-Winsch, Animal Law, Shaw, Londres, 1978.
[6]
No que se refere à proteção do animal
de fazenda na Europa, em 30 de março de 2006 aconteceu
em Bruxelas a primeira Conferência da União
Européia sobre o Bem-estar Animal [Nota da Redação
do LMD-França
[7]
Por exemplo, um conselheiro da rede de fast food Mc Donald’s
disse: “Os animais em boa saúde, bem tratados,
permitem à indústria da carne funcionar com
eficácia, sem problemas e com um bom rendimento.”
Ler Temple Grandin, [[Recommended animal handling guidelines
for meat packers
[8]
Ler Antonio Damasio, Ao encontro de Espinosa, Europa-América,
Lisboa, 2003. Ler também resenha do livro, por Maurício
Marques de Silva, na Revista de Psiquiatria do Rio Grande
do Sul.
[9]
Este texto foi extraído de sua intervenção
no colóquio, “Teorias sobre os direitos dos
animais e o bem-estar animal” realizado na Universidade
de Valença (Espanha) de 15 a 19 de maio de 2006.
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