Nosso querido Vira Lata
Por Bernie Bristow
Publicado na revista Seleções

Ele era apenas um filhote quando chegou até nós – um esperto cachorrinho vira – lata que fora abandonado à própria sorte em frente à fábrica em que trabalhávamos. Felizmente, os operários o acolheram e, num piscar de olhos, lá estava Boots (Botas), recebendo generosas sobras de alimentos e roendo os calçados dos operários
(daí o nome).

A fábrica era grande e espaçosa, e Boots transformou todo aquele complexo em seu lar. Passava os dias sendo acariciado por operários e funcionários do escritório. Era alimentado em excesso, mas se mantinha em forma patrulhando cada centímetro quadrado do local, de onde conhecia cada um dos funcionários -cerca de 400. Todos, de estagiários ao gerente-geral, estavam arquivados na memória de Boots. Qualquer pessoa que não estivesse nesse arquivo era logo cercada e submetida a ferozes rosnados, até que um funcionário autorizasse o estranho a entrar .Só então
Boots se afastava.

Como minha sala permitia uma boa visão do portão principal e do estacionamento de visitantes, muitas vezes apresentei alguns deles a Boots, para poupá-los da ira do nosso sentinela que, por sua vez, farejava- lhes os sapatos e jamais os esquecia, caso voltassem, fosse no dia seguinte ou seis meses depois. Em vez de atacados, eram recebidos com festa.

Não é necessário dizer que Boots logo se tornou o melhor segurança que alguém poderia imaginar, alegrando a todos enquanto realizava as tarefas de vigia. Um dia, porém, tudo mudou.

Boots estava conosco havia uns três anos quando seu zeloso comportamento o colocou em sérios apuros. Uma empresa japonesa, ótimo cliente nosso, enviou um grupo de altos executivos para uma visita à fábrica. Eles foram guiados por mim e pelo gerente-geral, e sem dúvida ficaram impressionados com as instalações. Mas, quando íamos entrando na casa de máquinas, notei que estava faltando o chefe da delegação. Perplexo, refiz o caminho e logo o encontrei. Infelizmente, ele não estava sozinho.

Nosso ilustre visitante se achava encurralado no canto do prédio, as palmas das mãos encostadas na parede, os olhos cheios de pavor e tremendo de maneira incontrolável - mantido prisioneiro por Boots. Apressei-me em dizer ao cão que estava tudo bem, e ele se afastou, enquanto o desgrenhado executivo dizia cobras e lagartos e falava de como temera por sua integridade física.

Ele irrompeu na sala do gerente geral, onde os outros integrantes da delegação o esperavam, e furiosamente os fez sair – para nunca mais voltarem É óbvio que nosso gerente ficou irritado e ordenou que Boots fosse levado ao veterinário para ser sacrificado. Todos os funcionários do escritório ficaram inconformados.

De repente, uma das secretárias jovem discreta e muito carinhosa com Boots, registrou sua desaprovação, aos berros. Completamente fora de si, ela ameaçou o gerente-geral com uma possível denúncia á Sociedade Protetora dos Animais e exposição na TV.

Irredutível, o chefe explicou que Boots era responsável, por graves problemas e constrangimentos, e - que agora se tornara a causa de um provável período de baixa nos negócios. E isso encerrava a questão.

Mais tarde, enquanto Boots era colocado dentro de um dos veículos a empresa e preparado para morrer, os operários ficaram sabendo da, - história e correram para o escritório, bloqueando a saída. O gerente geral, querendo evitar um conflito na fábrica, logo desceu para atendê-los, numa tentativa de resolver a situação.

Boots aguardava na traseira do veículo enquanto seu caso era julgado no tribunal improvisado. Os operários eram sindicalistas ferrenhos, e Boots, diziam era considerado um companheiro de trabalho. Sua "demissão” .não seria tolerada. e haveria greve se ele sofresse qualquer tipo de maus-tratos.
O gerente ficou calado enquanto estudava a situação. Estava claro que eles o tinham nas mãos e que não havia outra escolha senão ceder. Com relutância, concedeu perdão a Boots, sob a condição de que seu comportamento agressivo fosse reprimido.

Sua apresentação a estranhos deveria ser atenuada por um rigoroso programa de adestramento que ficaria a cargo da nossa meiga e solidária secretária. Satisfeitos, todos os operários voltaram ao trabalho e a harmonia prevaleceu na fábrica.

Boots foi adestrado de maneira adequada e logo se tornou um vigia mais manso.
Quanto ao executivo japonês, bem, nunca mais ouvimos falar dele. Sua empresa fez novos pedidos logo depois e continuou a ser um dos nossos maiores clientes, por isso eu suspeito que ele tenha deixado o emprego.

E Boots? Até onde eu sei, nunca mais causou problemas. Em vez disso, continuou a desempenhar fielmente sua função de segurança por mais 12 anos, até morrer em
paz no trabalho.
Mas nunca foi esquecido. Até hoje, os operários ainda lembram com carinho o dia em que um esperto cachorrinho ameaçou sozinho levar a fábrica a uma paralisação. Descanse em paz, Boots.