Se tem asas, porque não voam?


Faz alguns anos quando ainda morava no Rio de Janeiro e minhas filhas eram pequenas...Apareceu um belo dia meu marido, com um calopsita numa gaiola.

Poxa! Fiquei boba o pássaro era fantástico, tinha umas bochechas lindas!

Passou a fazer parte da decoração do apartamento, trocamos varias vezes de gaiola pra que tivesse mais movimento, e compramos uma calopsita pra fazer-lhe companhia. Um belo dia minha filha Gabi que na época tinha uns quatro anos me surpreendeu com uma pergunta boba...-Mãe se o Kako e a Pituca tem asas porque no voam, porque vivem ai dentro? Realmente fiquei sem palavras como explicar pra uma criança de quatro anos que uma ave que tem asas, que pode explorar os céus, pegar gravetos e fazer ninhos, dormir ao luar,viajar sem fronteiras... Tem que se limitar a viver num mundo reduzido, ver da varanda com tristeza como suas irmãs as aves voam e torcer por elas para que continuem livres e belas.

Minha filha uma criança de quatro anos me deu uma lição de vida, com uma pergunta ingênua, falei pra ela que realmente tava certa que o espaço era muito reduzido, mais eles tinham nascido em uma loja e não estavam acostumados a voar (a lógica cretina de sempre) mais poderíamos soltá-los em casa todo dia fechando as janelas. Kako e Pituca começaram a sentir o gostinho da liberdade todo dia, experimentavam a liberdade por um tempo e eram muito dóceis. Com o tempo a gente foi mudar numa casa com jardim , e num domingo que nunca esquecerei demos adeus a Kako e Pituca...Minhas filhas abriram a gaiola, no jardim de casa, Kako, Pituca e suas crias estiveram revoluteando timidamente durante algumas horas em volta de nos, ate que partiram em busca de novos horizontes...

Sobreviveram? Sinceramente não sei, mais se saborearam os céus só por um instante valeu a pena.

O motivo de meu desabafo, e a tristeza que sinto ao ver todos os dias pássaros silvestres em gaiolas chorando timidamente ( pensam que é canto?...é choro)

Es um espetáculo macabro, tem ate trabalhadores que levam seus pássaros de estimação em horríveis gaiolas penduradas da bicicleta e ninguém vê nada.

Eu por minha parte, vivo rodeada deles mais em liberdade, moram no meu telhado, coloco bebedouros para eles , se que uns gostam de banana outros de abacate, tomate tenho uma relação de amor com eles, ate entram na minha cozinha e comem a ração dos cachorros, pode?

Gostaria tanto de poder sensibilizar as pessoas, de faze-las entender que si gostam deles tem que amá-los deixando livres e não prendê-los.

Como falou uma criança com quatro anos...

Se tem asas porque não voam?


Ave

Ave

Que pena, tua ilusão de voar

Ficou emaranhada

Viver sem liberdade

Que triste garra

Ave, ainda que sua prisão seja de ouro

Não queres viver sem liberdade, enjaulada.

No seu cativeiro

Você e uma sombra no silêncio , emaranhada

Que pena

Sua tristeza esparge adagas

Ate o rocio ao verte

Derrama lagrimas

Ao ver-te tão enclaustrada

Sentiram frio, minhas entranhas

Tomara que a noite se converta em aurora

E um dia livre mantenhas teu sorriso erguido

Se que pronto tocarão clarinetes de gloria

E cairão os muros da jaula

E qual ave fênix

Conquistaras as alturas da liberdade sonhada

Eva Pinazo
Publicado em: 16/10/06