A vingança das galinhas
Leonardo
Boff
Da Carta da Terra
A galinha talvez seja a primeira ave a ter sido domesticada
há cerca de 12 mil anos quando o ser humano começou
a ficar sedentário. Desde então as galinhas
têm um destino sinistro: raramente morrem de morte natural.
São mortas para o consumo humano. Na perspectiva delas,
a vida é simplesmente uma tragédia. Normalmente
as galinhas eram e são criadas ao ar livre, perambulando
ao redor das casas. Ainda hoje as "gainhas caipiras"
são preferidas por serem muito mais saudáveis.
Modernamente com a sociedade da produção industrial,
elas foram transformadas em máquinas para produzir
carne e ovos. Fechadas, às milhares, em aviários
nos quais em cada metro quadrado são criadas de de
dez a doze, enganadas pela iluminação que lhes
tira a percepção da noite, alimentadas por promotores
de crescimento e de antibióticos para crescerem até
um ponto comercialmente ideal, quarenta dias, elas são
submetidas a grande padecimento. Se Gandhi, o Dalai Lama ou
qualquer pessoa sensível ao sofrimento visitassem um
desses currais aviários, seguramente se indignariam
e até chorariam de compaixão. Mas nossa espécie
se especializou em submeter impiedosamente todas as demais
para tirar proveito delas mesmo que implique grande sofrimento.
Sabemos hoje que todos os seres vivos formamos uma única
comunidade de vida, pois somos portadores do mesmo alfabeto
genético – as quatro bases fosfatadas e os 20
aminoácidos. Por que então impor este padecimento
na forma de crueldade para com nossos familiares e parentes
naturais?
Depois de séculos de violência, as galinhas agora
estão nos dando o troco. É a vingança
das galinhas. Ela vem sob a forma da gripe aviária
que está atingindo outros seres vivos e pode alcançar
também os humanos. É o famoso virus H5N1. Virus
aviários sempre existiram em formas não letais.
Agora este H5N1 se revela uma cepa patogênica. Se sofrer
mutações que o torna capaz de transmitir-se
aos seres humanos, ele pode se replicar loucamente e matar
entre 150 milhões a um bilhão de pessoas, consoante
previsões científicas. Surgido pela primeira
vez em 1997 em Hong-Kong, agora atingiu quase metade do mundo.
Não existe um antídoto que o elimine, apenas
possui efeito limitante. É o Tamiflu que não
age profilaticamente, apenas 18 horas após a infecção.
Foi desenvolvido a partir de um ácido extraido de vagens
de anis estrelado encontradas em agumas províncias
da China. A companhia farmacêutica norte-americana Gilead
Sciences da qual o Secretário da Defesa do Governo
Bush, D. Rumsfeld, foi presidente e é sócio,
desenvolveu o antivirus Tamiflu. Cedeu a lcença exclusiva
de produção à Roche suiça que
está lucrando milhões de dólares e reluta
em subceder licenças de produção por
causa da não anuência dos acionistas.
Hoje é sabido: a origem da gripe não provém
de galinhas criadas ao ar livre mas das práticas avícolas
industriais e pela utilização de "subprodutos"
da criação avícola como ração
industrial. A Fundação BirdLife demonstrou que
o padrão de focos da gripe segue as rotas das estradas
e das vias férreas e não as rotas dos vôos
de aves migratórias. A gripe é consequência
do manejo cruel que nós seres humanos temos feito com
as galinhas confinadas. Ai está o nicho de reprodução
do virus. É uma doença sistêmica. Ela
demanda uma forma de relação com os seres vivos
que não implique crueldade mas racionalidade e compaixão.
Leonardo
Boff publicou pela Vozes o livro A água e a galinha
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