Não é sempre que a gente se depara com coisas assim... Não é todo dia que vivenciamos tantos absurdos cometidos contra animais, julgados, por muitos, insignificantes à natureza! Pelo menos, não são todas as pessoas que presenciam diretamente o que aconteceu comigo...
Tudo começou quando eu consegui entrar na tão sonhada faculdade de medicina veterinária. Logo antes de começarem as aulas haviam me dito que animais eram mortos em sala, ou fora dela, para estudos. Na hora me preocupei mas achei tão absurdo que depois nem liguei. Chegada as aulas, fui logo na primeira semana estudar anatomia, vi vários bezerros mortos, em cima das mesas, os quais a professora os chamavam “peças anatômicas”. Interessante! De momento pensei que eram bezerros, que morriam naturalmente, até que um dia vi a primeira cena triste de minha vida:
Era uma bezerrinha, tão pequena que chegava a ser fofa! Ela passou em frente ao laboratório onde eu estudava, passou viva, e o técnico apontou para que a levassem ao hospital. Ingênua, pensei que o animal estivesse doente, mas no outro dia, naquela mesma hora e local quando cheguei ao laboratório para estudar, estava ela lá, morta em cima de uma das mesas e em sua boca, escorria um liquido branco, provavelmente leite de sua última refeição. Bom, para um animal que passou ontem por mim em pé, vivo e bem, não seria provável morte natural! Daquele instante para frente não consegui mais estudar, a imagem daquela bezerra ficou em meu coração como se me pedisse para tomar alguma atitude! Eu me calei, simplesmente nada fiz... medo talvez... vergonha de não ter feito nada antes... sei lá.
Os meses se passaram , mais um semestre começou e eu estava feliz. Era tudo muito bom ate a segunda semana de aula, onde escutei um comentário infeliz de um colega: - Hoje a tarde a aula será legal. Terá ratos e rãs para dissecação!
Escutei e novamente não dei atenção. A tarde chegou e eu fui a aula. Era fisiologia, uma das matérias mais necessárias para mim! Chegado lá no laboratório o professor foi nos apresentar os “objetos de estudo”. Primeiro ele pegou camundongos e ratos brancos e explicou para que eles serviam. Depois pegou as rãs e por fim os coelhos. Disse ele: Todos esses são do biotério da universidade. Como eu já detestava o biotério, imagine minha reação ao ver os animais! O professor então nos deixou “brincar” com os camundonguinhos, disse que eles a gente não iria usar. Eram lindos, embora eu estivesse um pouco amedrontada! Quando ele pegou o coelhinho, vi pavor nos olhos daquele animal, ele estava numa caixinha e deveria praticamente não ter contato com humanos. Meu professor falou que naquela espécie eram feitos muitos testes dermatológicos e em seu olhos, devido a sua pupila e foi falando algo a respeito. Naquele momento me perguntei: E o coelhinho da páscoa? O que fizeram com o meu coelhinho da páscoa? Agora ele é um “objeto de estudo”? E eu terei que compactuar com tamanha crueldade? Não, não... ali, em pensamento me neguei a realizar qualquer coisa naqueles animais. Mas o pior estava por vir...
Dos ratos meu professor escolheu 2. Dois infelizes condenados a morrerem naquele dia. A anestesia foi feita por um colega meu em um dos animais e o rato aos poucos foi ficando parado. Meu professor afirmou que a dose utilizada o iria matar! Dito e feito! Passado uns segundos o ratinho entrou em parada respiratória e enquanto ele sofria a falta de oxigênio o mestre o abria o abdome, revirava suas vísceras para mostrar aquilo que todo mundo já estava cansado de saber, de conhecer e ate de ver. O animal estava roxo, literalmente roxo, mas o coração ainda batia. Vi no rosto de uma colega seus olhos encherem d’agua e u fiquei paralisada, rezando para que o rato enfim morresse, e tivesse paz! O professor então retirou o coração do animal ainda batendo e colocou em cima da mesa e disse: - Olhem, mesmo fora do corpo o coração ainda continua a bater! Eu me perguntei: e daí? Porque você não disse isso, a gente iria acretidar! Nós acreditamos até em fotossíntese, DNA e tantas coisas loucas sem ver! O rato morreu, acabou a aula! Até hoje não sei a moral da história, pois a cena não saiu da minha cabeça mas o conteúdo da aula, por mim, não foi aproveitado!
Na próxima aula, eu, acreditando que tudo seria diferente, fui assisti-la novamente! Chegando ao laboratório, me deparei com uma gaiola onde estavam aproximadamente 10 rãs. Na hora eu quis voltar, mas um amigo me convenceu do contrario. Era aula sobre lesão medular, onde tudo foi explicado primeiro na teoria e ali, tudo já foi compreendido, mas mais uma vez, o professor quis provar que era verdade. Deu a cada grupo uma espécie de estilete e um isqueiro e ali começou mais um assassinato, dessa vez sem anestésico, pois rãs não gritam de dor! Fiquei chocada e jurei nunca mais assistir aulas com vivissecção. Assim o faço até hoje! Me tornei uma aluna objetora de consciência com muito orgulho. Nada me foi prejudicado por faltar a tais aulas, meu desempenho é exatamente o mesmo comparado aos meus colegas, provando mais uma vez que aulas com animais para esse fim, são em vão. Além de não ajudarem, podem atrapalhar devido ao choque sentido por muitos alunos. Hoje luto por um mundo melhor, tento conscientizar as pessoas de que o ensino deve deixar de ser como eram a séculos atrás. Não culpo meus professores, eles provavelmente também aprenderam assim. O que me intriga é o porque não evoluir. Mas vamos nós tentando... vamos algum dia, provar para o mundo que o uso de animais no ensino deve ser abolido!
Íris Renata Duarte Ramos







